E já lá vão umas três semanas e nada de escrever por estas bandas. E à falta de inspiração fala-se precisamente das razões de tal absentismo. Neste caso: vida social.
Creio que é uma daquelas coisas que estão sempre em risco quando nos mobilizamos para um outro país. A vida social fica como que morta por algum tempo. Seja ele longo ou curto. Se se vai para estudar a coisa fica mais fácil. Cria-se mais empatia com os colegas de “trabalho” pois em geral não só se tem a “actividade laboral” em comum como também o estilo de vida: estudante! Todavia, e tendo eu vindo para estas bandas como enfermeiro, digamos que a minha vida não ficou facilitada. Apesar de ter em comum a actividade laboral garanto a pés juntos que não comungo com os meus colegas no que se refere ao estilo de vida. Vejamos. Não estou a fazer qualquer investimento na minha profissão. Não há cá cursos, livros para ler ou seminários. Não tenho um empréstimo habitação. Mais importante, não quero ter. Não tenho uma noiva ou casamento marcado. Também não me aguça o apetite. Não tenho uma carro e com ele o empréstimo para pagar. Carro quero, mas em segunda mão e sem intervenção do amigo banco. Não tenho garotos, não estou a tentar ter, nem estou a tentar encontrar alguém para os “produzir” comigo. Quero ter sim, mas num futuro relativamente distante. Por enquanto há que praticar
. E a lista por ai se estenderia… Identifico-me então muito mais com os meus colegas surfadores de sofás, que passaram a amigos e depois vem o amigo do amigo, mais o gajo ou gaja que “ninguém conhece mas também não importa”.
Nestes últimos tempos tenho-me entranhado em actividades sociais em todos os dias em que estou de folga e, inclusive alguns em que estou a trabalhar. Escusado será dizer que: “quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga”. O meu círculo de “amigos” cresce. Os telefonemas acontecem, os convites surgem.
Ficam as desculpas pela ausência de notícias. Mas, verdade seja dita, essas resumem-se a um corre-corre social.
Ah… dia 30 deste mês: Japão ai vou eu.
Aquilo que nos rodeia existe por si só. Porém, a perspectiva de quem observa, sendo quem humano, torna o “aquilo” subjectivo, variável. Estou convicto que a tal perspectiva é francamente moldável. Nasce-se, cresce-se. Aprende-se uma cultura, absorve-se uma língua. Factores estes que, com muitos outros, moldam não o que vemos, mas como vemos.
Outrora conheci uma pessoa que me disse: “Nacionalismo é uma doença que se cura a viajar.”
Não querendo ser a favor ou contra, e ignorando o tema nacionalismo, devo dizer que a exposição a outras realidades e culturas nos torna mais tolerantes, receptivos e menos propícios a choques. No sub-planeta Humanidade as possibilidades são imensas, não existe o estilo de vida perfeito ou a cultura ideal. As diferentes abordagens que países/culturas têm relativamente à sua interacção com o meio e às relações humanas devia ser elevado a Património do Humanidade.
E tudo isto porque hoje um jovem Europeu ficou algo surpreendido com o gesto amigável que uma jovem Australiana teve enquanto com ele falava. Simplesmente manteve a sua mão no ombro ou na perna do dito rapaz. Enquanto tal não será estranho a países do sul da Europa, como Portugal, em países mais nórdicos, caso do jovem, contacto físico enquanto se comunica pode ser interpretado de forma negativa. E assim o gesto, negativamente, interpretou o dito Europeu, que do Mundo havia experimentado Alemanha, onde nasceu, e Suíça!
Saí do trabalho, enrolei um cigarro, peguei no telemóvel e telefonei a uns amigos… pouco passa das 10 da noite. Estão em vias de ir para os copos… abordagem saudável claro, nada de tosgas! Digo que não, que não pode ser. Amanhã recebo um couchsurfer, vou tomar café com outros amigos/conhecidos e, não posso esquecer… terei que limpar a casa – exercício semanal! Despeço-me. Dirijo-me a casa. Passo pelo marmeleiro! Só me apetece matar a bovina da dona da dita árvore. “Ah, e tal, leva dois que com o resto faço doce”. Qual quê, ainda para lá estão uns 5 ou 6 pendurados, à espera de cair no chão para apodrecer… claro que já me ocorreu um rapto… mas nunca deambulo pela área a horas propícias ao crime. Pobres dos marmelos. Acode-me então à memória que há alguns anos atrás eu teria caminhado na direcção oposta, na direcção da estação de comboio. Estaria quase dentro de um desses paralelepípedos que rolam sobre carris e depois era dar uso ao egrégio telefone móvel para encontrar os companheiros de socialização. Será a idade? Serão os ossos? O “reumático sô dotor”? E, caminhando até casa acabei por acordar comigo mesmo que de futuro somente questões de vida ou morte se imiscuirão entre mim e a possibilidade de socializar.